O mundo é estranho.
Luiza sempre soubera. Mas lutava estupidamente e retoricamente em acreditar que o mundo era bom. Lá no fundinho dele, que, não só havia esperança, como era feito dela. Era mais ou menos assim:
Maria, sua melhor ou ex melhor amiga, ela não sabia muito bem, nunca ligava. Queria tudo nas mãos e segurava tudo nas mãos com tanta força que não sabia dizer se as coisas que tinha, eram dela ou eram roubadas. Usurpadas com dor, amor, alegria ou tristeza. Dizia na cara dos outros o que queria. A verdade rasgada e que engasgava o outro. O desejo escondido que escorria nos olhos, era escancarado por Maria sem dó ou piedade e despejado aos quatro ventos.
As pessoas ouviam, riam sem jeito, perdiam sua graça e não revidavam. Fingiam que não havia incomodado, machucado, rasgado o que tanto tentavam esconder... As dores, os sacrifícios.
Sabe, quando sabemos os sacrifícios que fizemos por amor, é insuportável. Do que abrimos mão e, claro, por escolha nossa, afinal, o amor é um guia. Sempre o seguimos, mas onde paramos ou optamos ficar mais tempo, são escolhas próprias. Próprias da loucura, do desamor, do ciúmes, das vontades, do querer e do não-querer passível de ser. Sabemos! E é por saber, que não gostamos que percebam. Muito menos que vomitem tudo aquilo na gente.
Luiza sabia disso. Maria não importava. Para Luiza, porém, ela era daquele jeito porque havia perdido a esperança. Achava que a sinceridade era o melhor caminho, ninho, por ter sido sempre tão rodeada de falsidade. E este desamor, a pegou e a fez ser quem é.
Luiza nunca via o ruim dos outros. Contornava tudo, nem que tivesse que caminhar mais um pouco. Esse jeitinho de Luiza não cativava os outros. Deveria. Mas todos sabemos que ser bonzinho é um desperdício, perda de tempo num mundo rodeado de gente ruim. Eu mesma tentei convencê-la diversas vezes a mudar. Ela sempre dizia:
- O mundo todo é ruim. É rodeado de flores estragadas e murchas quando se espera um buquê, uma florzinha roubada num quintal. Presentes que esperamos há tempos e ganhamos uma meia (até caneta era mais útil), mas te dão uma meia. Uma chuva no meio do mais esperado show do ano (e não basta a chuva, o show é cancelado). Um: “você é uma grande amiga”, quando espera-se um “eu te amo”.
E eu digo: - Exatamente. Não se pode esperar nada de ninguém, além do pior. Quando Se espera muito de alguém, não só dói por não receber, como perde-se muito da gente, do sonhado/imaginado/ansiado, da fé. E hoje em dia a fé não é o sentimento favorito de quase ninguém. Não está movendo nem canudinho de plástico, muito menos montanhas.
E Luiza: - não terminei. No meio das desesperanças, maldades, decepções, desamor, Deus se compadece, em alguns anos, em certos momentos, Ele faz lá de cima sua parte. E aparece com essa caixa minúscula, esse pó de pirlimpimpim, um raio colorido. E manda uma pessoa boa. Elas são presentes de Deus. Sabe a história dos deuses? Tem até naquele filme, como é mesmo o nome? Sei lá. Enfim. Os deuses estavam entediados e inventaram os humanos. Contudo, continuaram entediados e inventaram o amor. E então não estavam mais entediados e resolveram experimentar o amor eles mesmos. E com o amor, encontraram a dor. E finalmente, inventaram o riso, para que pudessem suportar o amor. As raras pessoas boas são o riso. No meio desta catástrofe humana, dessa inconsciência de piedade e amor, elas aparecem. E as coisas parecem que não as incomodam tanto quanto nos outros. E elas são consideradas sonsas, burras, cínicas, falsas e loucas. Num mundo onde não é natural, saudável ou mesmo são, ser “bom”.
- É, não é. Muda disso Luiza. Você ainda vai quebrar a cara.
- Quebrar-se não é ruim, sabe? Eu me junto, me refaço. Mas não quebrar, deveria ser pior que quebrar os outros pra se proteger. Não deveria?
- É Luiza, deveria, deveria...